Feche as gavetas :: Texto e voz Maria Sanz

 

Feche as Gavetas


Tem coisa que a gente procura sabendo que não vai encontrar. Faz pelo alívio de ter tentado.   

Ah, como a gente tenta… E abre e fecha centenas de vezes a mesma gaveta.

Revira tudo. Procura daqui, remexe de lá. Mas, como se sabe, até uma laranja se espremida ao máximo se torna amarga. E assim, chega a hora em que o cansaço faz a gente se sentir derrotado.

Para quem é esperto, porém, a derrota jamais é completa. Ora, buscando isso, podemos encontrar aquilo (!). Faz parte do jogo. Ter sorte é mirar no que se enxerga e acertar o que estava escondido. Tanto melhor, portanto, valorizar o que a sorte conceder ao invés de maldizer o que não foi repartido.

Tsc, nisso eu acredito!

Cecília, por exemplo, era uma moça obstinada que procurava o amor por todos os lados, em cima, em baixo, e em cada canto. Até que um dia, sem querer, ela foi encontrada por uma certa coisa torta que não se parecia com o que ela queria. Mas veja você, apesar de estranha, essa tal coisa lhe trazia baldes de alegria.

Contudo, a desconfiada Cecília achou que aquilo podia ser uma armadilha que lhe tiraria do rumo, ou a faria perder a trilha.

Então ela desistiu. Deixou aquilo pra lá. Abriu mão da coisa que era torta, apesar de deliciosa, e voltou a abrir gavetas.

Abriu tantas e de tantas maneiras, que começou a sentir o cansaço. Procurou tanto e teve tanto trabalho, que a laranja ficou amarga, e ela passou a admitir, como melhor recompensa, o alivio de ter tentado.

Infelizmente, Cecília não era esperta. Não soube enxergar preciosidade no tesouro que havia encontrado. Ao contrário, fez questão de deixá-lo. Ah, pobre menina…Ainda não sabia como o amor se escondia. (É disfarçado por entre nós que ele caminha).

É…O amor é torto e atrevido. Às vezes se enfeita de ouro, noutras se cobre de piche. Ele aparece para poucos, mas jamais para quem dele duvide. Por isso, se você já sabe que vai achá-lo mais cedo ou mais tarde, pare já de procurar.

Feche as gavetas.

Fique onde está. É ele quem, disfarçado e de repente, vai te encontrar.

 

Maria Sanz Martins

 

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